Campanha de Lula pede abertura de inquérito pela Polícia Federal e cita anúncios no exterior, Rockbridge Network e possíveis operações financeiras ligadas à disputa presidencial.
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para investigar uma possível interferência estrangeira nas eleições brasileiras de 2026.
A petição foi protocolada na quarta-feira (23), diretamente no processo da ADPF 1178, que tem Dino como relator. O pedido menciona possíveis operações envolvendo plataformas digitais, publicidade, recursos financeiros e outras formas de atuação estrangeira que, segundo o PT, poderiam alcançar o processo eleitoral brasileiro.
A manifestação ocorre a poucos dias do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, e em meio ao debate sobre a influência de governos e organizações estrangeiras na disputa presidencial.
O PT também apresentou, em paralelo, uma representação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o candidato Flávio Bolsonaro (PL), seu vice, Alfredo Gaspar, e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, alegando possível abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação.
O que o PT pediu a Flávio Dino
Na manifestação encaminhada ao STF, o PT pede que novos fatos sejam recebidos como notícia de possível descumprimento da decisão proferida na ADPF 1178 e que seja instaurada investigação pela Polícia Federal.
A legenda também solicita a adoção de medidas para preservar provas e apurar a origem de eventuais recursos, contratos, pagamentos e operações digitais que possam ter relação com a campanha eleitoral.
Segundo informações divulgadas sobre a petição, o partido quer que a investigação alcance eventuais operações realizadas por meio de plataformas digitais, instituições financeiras, publicidade, recursos, bens ou serviços de origem estrangeira.
O pedido ainda não significa que as irregularidades apontadas tenham sido comprovadas. Trata-se de uma solicitação de investigação apresentada pela campanha de Lula.
Por que o pedido foi apresentado a Flávio Dino
A justificativa jurídica utilizada pelo PT está relacionada à ADPF 1178, apresentada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), processo que discute a atuação de municípios brasileiros em ações judiciais no exterior.
Em agosto de 2025, Dino determinou que decisões, leis, decretos e ordens executivas estrangeiras não produzissem automaticamente efeitos no Brasil quando não tivessem sido incorporados ou reconhecidos de acordo com a legislação brasileira. O STF informou que a decisão tratava da eficácia interna de atos unilaterais estrangeiros.
O processo continua sob relatoria de Dino. O registro oficial do STF identifica a ADPF 1178 e mostra o ministro como relator.
Na petição eleitoral, o PT sustenta que os princípios discutidos naquela ação também deveriam ser considerados quando eventuais ações estrangeiras atingirem o processo eleitoral brasileiro.
A legenda afirma que essa proteção deveria alcançar inclusive ambientes digitais e financeiros, considerando as restrições previstas na legislação brasileira para o financiamento estrangeiro de partidos e candidaturas.
Rockbridge Network é citada na petição
Um dos episódios mencionados pelo PT envolve a Rockbridge Network, organização norte-americana citada em denúncias relacionadas a um possível apoio estrangeiro à candidatura de Flávio Bolsonaro.
O assunto também havia sido levantado pelo candidato Renan Santos, do Missão. A campanha de Lula pede que sejam esclarecidas eventuais relações, contatos e operações que possam indicar financiamento ou apoio estrangeiro.
No entanto, a existência de vínculos ou contatos não comprova, por si só, que tenha ocorrido financiamento ilegal de uma candidatura.
A cobertura da CNN sobre a petição informa que o próprio documento registra que ainda não havia comprovação de repasse de recursos à campanha de Flávio Bolsonaro.
Publicidade no X também entrou no pedido
Outro ponto apresentado pelo PT envolve anúncios publicados no exterior em perfis da plataforma X com conteúdo favorável a Flávio Bolsonaro.
Segundo a petição, publicações feitas entre 18 e 21 de setembro teriam divulgado conteúdo favorável ao candidato e feito referências a cotações da plataforma de previsão Polymarket.
A campanha de Flávio, segundo a CNN, afirmou não ter conhecimento dos anúncios mencionados.
O PT pede que seja possível identificar quem financiou as publicações e verificar se houve relação entre os responsáveis pelos anúncios e a campanha eleitoral.
Brasil Paralelo e Estúdio Quinto Elemento
A petição também menciona conteúdos produzidos pelo Brasil Paralelo e pelo Estúdio Quinto Elemento que teriam sido disponibilizados pela chamada Academia da Direita, plataforma ligada ao PL.
De acordo com o relato sobre o documento, o PT questiona a disponibilização de oito documentários e aponta a ausência de registros correspondentes de contratação, pagamento ou despesa nas prestações de contas analisadas.
A alegação ainda depende de apuração e não representa uma conclusão da Justiça Eleitoral ou do Supremo sobre eventual irregularidade.
Campanha também acionou o TSE
Além do pedido apresentado ao STF, a campanha de Lula levou ao TSE uma representação contra Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar e Eduardo Bolsonaro.
O processo eleitoral questiona possíveis práticas de abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação.
O TSE já analisa outros processos envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro. Em 22 de setembro, por exemplo, a Corregedoria-Geral Eleitoral solicitou informações ao Facebook e à Shopee em uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral que apura possível atuação coordenada de contas no Instagram. A ação foi apresentada contra Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar e Mario Frias.
Esses procedimentos são independentes do pedido feito pelo PT a Flávio Dino no STF.
O que acontece agora
Até a publicação desta matéria, não havia decisão de Flávio Dino sobre o pedido de abertura do inquérito.
Caso o pedido seja acolhido, caberá definir o alcance da investigação e quais medidas poderão ser adotadas para obtenção e preservação de provas.
O pedido do PT não representa, por si só, uma conclusão de que houve interferência estrangeira ou financiamento ilegal. Essas questões dependem de investigação, produção de provas e eventual análise pelas autoridades competentes.
Debate sobre interferência estrangeira ganhou espaço na campanha
O pedido ocorre em um momento em que a relação entre Brasil e Estados Unidos voltou a ocupar espaço no debate eleitoral.
Em discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em 22 de setembro, Lula defendeu a soberania brasileira e criticou interferências externas em processos políticos e eleitorais.
O tema também aparece no contexto das medidas econômicas e diplomáticas adotadas pelos Estados Unidos contra o Brasil e das manifestações de autoridades brasileiras sobre a necessidade de preservar a autonomia do processo eleitoral.
Para a apuração jornalística, entretanto, é necessário diferenciar declarações políticas, suspeitas apresentadas em petições judiciais e fatos comprovados por investigação.
Perguntas frequentes
O que o PT pediu a Flávio Dino?
O partido pediu a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para investigar uma possível interferência estrangeira nas eleições de 2026 e solicitou medidas de preservação e coleta de provas.
Por que o pedido foi apresentado ao STF?
A petição foi apresentada na ADPF 1178, que já tem Flávio Dino como relator. O PT tenta relacionar a discussão sobre efeitos de atos estrangeiros no Brasil ao processo eleitoral.
O PT também acionou o TSE?
Sim. Paralelamente ao pedido no STF, a campanha de Lula apresentou representação no TSE contra Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar e Eduardo Bolsonaro por alegações relacionadas a abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação.
Já foi comprovada interferência estrangeira nas eleições?
Não. As informações citadas na petição são objeto de alegações e pedidos de investigação. A existência de anúncios, contatos ou relações empresariais não comprova, isoladamente, financiamento estrangeiro ilegal ou interferência eleitoral.
O que é a ADPF 1178?
É uma ação no Supremo Tribunal Federal proposta pelo Instituto Brasileiro de Mineração. O processo discute, entre outros pontos, a eficácia no Brasil de atos e decisões estrangeiras e tem Flávio Dino como relator.
Flávio Dino já decidiu sobre o pedido?
Até o fechamento desta reportagem, não havia decisão do ministro sobre a solicitação de abertura do inquérito.

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